4 de abril de 2017

O dia em que a pomba entrou em casa

O primeiro dia de aula diferente e fora das órbitas normais da minha vida se iniciou e todos estavam ansiosos: papai, mamãe, namorado e eu. Nascida, criada e acostumada com a dinâmica de uma cidade de interior, essa foi a primeira vez em que me aventurei em terras paulistanas e pelas linhas azul e vermelha dos metrôs.

O fato, claro, foi antecedido de grande pico de adrenalina e frustração uma vez em que meu celular não despertou e em menos de 8 minutos tive de trocar de roupa, escovar os dentes, ignorar um café da manhã e qualquer questionamento sobre a qualidade do cabelo amanhecido -- e algumas leis de trânsito também.

Tudo certo, tudo muito certo.

Às 16:30h estava já dentro do carro dos meus pais, de volta para casa no interior, tentando tagarelar sobre a explosão de animação diante da nova aula, a ansiedade patológica diante de pessoas novas e da necessidade de me socializar, mas o cansaço me pegara -- e minha amiga passaria em casa para me buscar para nosso café em breve, muito em breve.

Minha mãe deixou a mim e ao meu pai em casa e saiu. Meu pai me disse que iria na padaria e já voltaria. E eu fiquei ali, no aguardo da carona.

Mariana -- acompanhada de outra Mariana -- apareceu no horário e no horário também surgiu uma pomba.

Uma pomba.

Robusta, cinza e sem qualquer medo de mim (e a recíproca estava longe de ser verdadeira).
Fazia cinco minutos que meu pai tinha saído e um que minhas amigas estavam me esperando dentro do carro sem entender por que eu não abria o portão e saia de uma vez. Acontece que o ser alado diante de mim bateu as asas e veio em minha direção e eu, rápida e sabiamente, me joguei contra a parede e observei a cagada da escolha feita por mim com o bater das asas da pomba para dentro da sala de casa.

Veja: o portão de casa é de grades; a garagem da casa tem a porta da sala e do quintal (que estava fechada). Qualquer outro lugar que eu tivesse me jogado, a pomba se debateria pelas paredes e conseguiria, em algum momento, sair pelas grades do portão. Obviamente que as coisas não acontecem da melhor forma possível quando você está atrasado.

Tentei gritar para as minhas Marianas que tive um pequeno contratempo na saída, mas achei viável lidar com a situação e não perder mais tempo com aquele animal. Corri para dentro da sala na esperança de persuadir a pomba a voar de volta pela porta certa e ir embora para eu conseguir sair com as meninas e meu pai poder chegar em casa sem perceber qualquer movimentação estranha.

Decisões erradas tomadas nessa estratégia à parte, a pomba acabou por ficar presa atrás do imenso sofá.

Decidi enfim noticiar o fato para as meninas: abri o portão (o de casa é na chave mesmo) e fui até o carro quando vi meu pai se aproximar, feliz, calmo e assertivo, com a sacolinha na mão, contente por ter conseguido encontrar o leite tipo A de que ele gosta e, pouco a pouco, suas expressões foram murchando e abrindo espaço para outras: primeiro veio a Dúvida de me ver do lado de fora do carro, apoiada sobre o vidro e o portão ainda aberto, depois o Receio ao me ver sorrindo para ele já com os braços abertos para uma recepção falsamente calorosa e, então, a Decepção ao meu ouvir dizer:

- Então, tem uma pomba na sala.

"Você acabou de chegar e te deixei sozinha por 5 minutos. Qualé o teu problema?!"

Entrei no carro e ainda pude observar papai parado diante do portão aberto olhando para dentro de casa.

17 de fevereiro de 2017

O Gato de Schrödinger

Vou dizer que a ciclicidade do tempo é arrebatadora, mesmo que previsível - e eu já escrevi esse texto algumas vezes nos últimos 8 anos: é muito difícil conseguir perceber qualquer atitude do mundo externo quando o interno tem se mostrado muito capacitado em aumentar vazios e modificar espaços. Existem maiores arrependimentos que o "e se": é ele somado à escolha errada. Eu não sei - vou continuar a dizer; eu não sei - vou insistir para você, porque a verdade é essa: eu realmente não sei. Perdoe-me se antes eu fui eloquente e conseguia conduzir nossa hora de forma clara e cheia de reflexões e sinceridades mais otimistas, mas agora não consigo.
Como posso elucidar em voz alta algo que nem em pensamento está fomentado? E quando eu tento - porque eu juro que tento - nada se organiza, o caos se estabelece maior ainda e somem-se as cartas nesse vento todo. E tem ventado muito aqui.
Queria poder pôr em poema, poesia, linhas quebradas para encontrar o mais profundo predicado para esse verbo que me encontro - mas, confesso, as perspectivas no momento não são das melhores e têm levado embora até o "gosto e faço". Desculpe pelo clichê da geração, eu mesma que quis fugir e me ver única estrela caio entre os meados no mais fácil - e esse medo me acerca de forma grande: optar pelo mais fácil.
Mas eu quero ser feliz - mas ser feliz não diz respeito a fazer o que se gosta; no entanto, você precisa abrir esses olhos e compreender que quando em nada lhe dá a faísca para enfim enfrentar o que não se gosta quer dizer que não há felicidade de forma alguma. Não há qualquer estado de felicidade nesse caos e o que é a busca por ela senão necessária para nomear o Medo e o Caos? E agora em letras maiúsculas porque se personificaram entre uma linha e outra.
Vou continuar a bravejar contra o divino para que ele ceda às minhas argumentações e entenda, de uma vez por todas, que essa cruz está mal ajeitada em minhas costas e ombros e eles literalmente doem. Minha vista tem brilhado algumas vezes por dia e, digo, é bonito - se possível.



25 de janeiro de 2017

Saudade de casa?

Sei que era para ser uma pergunta de fácil resposta, mas é tão dúbia quanto a oportunidade. Se por "casa" você se refere ao estabelecimento em que moro agora, não, não sinto saudades. Mas se tiver qualquer resquício de "lar"... O lar fica longe. Longe - ali onde meus pais moram sob a construção física do único lugar em que conheci até a idade adulta, e com as únicas pessoas que sempre estiveram comigo desde o meu nascimento.
E antes dele - além de mim mesma.
Mas, por favor, não adentremos em tais assuntos. Deixo-o com o benefício da dúvida e eu com a amargura da duplicidade da resposta.

20 de janeiro de 2017

e de Austen não houve nada

Direciono você, querida,
para além de nós dois, postos dentro desse limite específico - e físico -, querendo na verdade borrar-nos para depois da margem e não ficarmos presos à ela. Quem dera eu poder te levar para depois de nossos seres, poder te ver crescer, expandir e ocupar toda a dimensão não linear, etérea, de nossos corpos, ver as ramificações incessantes e incontroláveis de sua mente e poder, uma única vez que me deixasse, te ver criar.

Vejo por dentro do seus olhos que a todo instante tem um fio de pensamento que se desmembra em ideia e então cada fio e cada pena se juntam e se recriam em combinações infinitas envolta do mesmo cerne. Não há pergunta sobre "o que". São tantas coisas, tantas imagens, tantas sensações que são espelhadas nas íris de seus olhos que me pego pensando se algum dia realmente suas ideias já foram transmitidas por elas.

(Ou se chegam até ali e refletem-se para dentro de seu cérebro, em todas as constatações fisiológicas que devo assumir, em todas as faíscas de pensamentos que você me faz assumir - mas não me permite realmente conhecer).


I want to trip inside your head 

Spend the day there… 
To hear the things you haven’t said 
And see what you might see
- Miracle Drug,U2 -

3 de janeiro de 2017

Olliver

A primeira vez em que te vi
o oceano você era para mim.

Não é metáfora.
Não foi amor.

Foi apenas eu descrevendo
seus olhos
menos dentro e mais para fora.

Ondas me prendiam.
Ondas me arrastavam.

A força imponente das águas
que me forçavam a mergulhar
fundo
muito fundo
a ponto de eu poder observar seu pensamentos.

Porém

não fundo o bastante
para entre os meus dedos
emaranhar seus sentimentos.

15 de dezembro de 2016

Sher Locked

E de tudo o que nós dois poderíamos ter dito e não dissemos, aquele seu olhar todo machucado, avermelhados, com cristais líquidos presos por um nó na garganta, foi o que mais soou alto como sinos catedráticos em dia de natal. Ironia à parte, à festividade, ao que eu não planejei fazer por nós dois, eu sinto muito. A minha inabilidade de não compreender a extensão do comportamento humano me faz enxergá-lo, algumas vezes, fragmentado. Sou muito bom com quebra-cabeças, mas só conheço os diagnósticos e não o sentir. Não sei o que você sente. Sinto o que você me proporciona: a ajuda em planos malucos, a rapidez de sua mão para um tapa na cara - e não leio além disso.



Sugestão para ouvir enquanto ler:

21 de novembro de 2016

Não foi "Adeus"

Pra USP fui selecionado
e para outra cidade você me levou.
Me deu uma abraço com o carro estacionado,
"Filho, agora é com você" e então chorou.
Me inscrevi sabendo dos 5 anos
e já imaginando a gente se formando.
Você, na primeira fileira sentado,
me aplaudindo e sorrindo por esta fase ter terminado.
No começo,
achei que o sonho era somente meu,
e com o tempo,
a cada retorno para casa tinha aquele abraço,
percebi que ele era também seu.
Você via em mim
uma conquista mútua;
fui seu projeto de uma vida
e tudo o que você queria
era que eu reconhecesse o valor da luta.
Me ensinou a ser gente,
aprender que gentileza,
em toda a sua leveza,
faz o outro se sentir potente.
O sonho hoje se concretiza em mim
nesse dia de roupas bonitas, canudos e discursos.
A saudade de você cresce com raiz
e em meu coração há sua Luz
me lembrando que hoje você está aqui.
O Amor que nasceu em você
quando para o mundo eu surgi
não acaba na ausência física do ser.
Cresce e expande
em velocidade crescente
quando vejo que me tornei gente;
na paz que no meio da tormenta aparece
e no choro calado da saudade que se tornou a minha prece.
Hoje tenho com o meu nome o diploma
que vem gravado nas entrelinhas
a sorte de sermos pai e filho nessa vida,
a primeira escola e até nossa primeira briga.
Carrega seu nome e o nosso amor
que me fez chegar exatamente onde estou.

*escrito para tentar ser selecionado como discurso dos Pais Ausentes na colação de grau.

12 de outubro de 2016

voando de braços abertos
sem nuvens sem ar
sem pensamentos
para me fazerem parar
e voando à frente e a esmo
tudo o que toco com o dedos
é
puro sentimento.

10 de outubro de 2016

O Importante Mesmo Era o GRUPO

No ingresso de uma universidade
a única escolha da nossa idade:
o melhor lugar
para sairmos profissionais.
Implícito não estava porém
que junto comigo
haveria outros alguéns
tão diferentes dentro do mesmo artigo.
Formamos um grupo tímido
- estranhos e desconfiados -
com medo de não conseguir um único amigo.
Qual a chance de selecionar 30 pessoas desconhecidas
e encontrar ali pessoas para serem íntimas?
E a convivência chegou
provando que aos poucos se enxertou
as personalidades mais improváveis
dentro das mesmas vontades.
Éramos peças separadas,
incapazes de enxergar
que um dia formaríamos uma imagem aparada
da ida até um pôr-do-sol nessa caminhada.
Brilhamos na improbabilidade.
Entre nós surgiram presidentes de entidades.
Entre nós, algumas aceitaram o peso da nossa representatividade.
E não é que a longa jornada
encontrou a bifurcação dessa conjunta caminhada?
Cada um para uma via
carregando as mudanças
que aconteceram nesses dias.

Vamos à vante, turma x.

28 de setembro de 2016

Vontade de Ser

De olhos fechados
e boca selada.
Silêncio diante dos achados;
sou hábel na arte de esconder.
Pois sou o lado interessado
na arte de inverter
a vontade de ser.


observação: tcc cansa a mente.

22 de setembro de 2016

Ela Vai Voltar

Foi no meio de todo o barulho que a música deveria não ser e somado às tantas conversas conjuntas que deveriam sobreporem-se à música que os fonemas de um nome chegou aos meus ouvidos. Parecia que todos sussurravam os sons daquelas letras juntas e que seus olhos me contavam que algo estava para acontecer.
Você foi embora muito cedo. Você foi a minha paixão platônica aos 9, 10 anos e minha aventura aos 18. Achei que ficaria, que a última noite não seria de fato a última apesar de eu contar isso para todos os meus amigos. Não poderia dar o braço a torcer quanto a realmente estar ficando com a única menina que deixei se aproximar naquela fase em que a gente repele a própria mãe. Mas você se foi. Deu-me o último beijo, a última olhada nos olhos do banco do co-piloto do meu carro e eu não tive inteligência o suficiente para entender que era um adeus.
Bobo como fui, cri cegamente que haveria em breve um novo encontro.
Isso há mais de 10 anos.
Corri para a rua para frouxar o colarinho de uma camisa sem botões abotoados. O modo como todos fofocavam sobre a sua vida me fez acreditar que se materializaria diante dos meus olhos ali naquele segundo. Mas que jeito?
Do mesmo jeito como meu coração bate a menor menção do seu nome.
Faz tempo, entende? Fez muito tempo e eu me sinto aquele garoto que pedalou até a mansão do seu avô para te ajudar a estudar. O suor, a palpitação, o fôlego cortado, os dedos trêmulos. Lembro-me do segurança me julgando pelo chinelo, rosto com suor sujo de pó e a bicicleta velha. Tirou os óculos escuros e me mediu de cima à baixo, comunicou-se com alguém, os portões se abriram e ele mandou eu pedalar, se tivesse coragem.
Eu morria de medo do seu avô.
Foi só em casa que eu descobri que a minha paranoia era verdade: você estava voltando. Celada em uma caixa de tom escuro e com aquele anel de noivado já preso ao dedo. Acidente grave à parte, achei que teria uma última chance de ver seus olhos castanhos e descobrir quais sardas foram aderidas com o tempo.
Quis o acidente de carro na ironia do destino levasse seus pais quando era criança, seu avô na idade adulta e hoje você.
A palpitação é a mesma.
A mesma de quando te vi pela última vez.

29 de agosto de 2016

Da Série "Como unificar todos os acontecimentos em uma única metáfora"

De tudo o que poderia nos acometer, nunca de fato idealizei o furacão girando conosco no centro. Parece a calmaria e podemos até sobreviver, mas ali do lado, nesse cone gigante e violento, o vento gira com velocidade e força absurdas e capazes de nos estraçalhar. Se a gente levantar e sair do meio do furacão, podemos - e vamos - morrer. O impasse de uma situação fantástica e incrédula o suficiente para rimos histericamente, consumidos pelo desespero, pela prisão, pela morte eminente.
Daqui eu só consigo visualizar duas formas de resolução - e, desculpe, mas nenhuma será indolor. A primeira é o fato de que esse furacão vai andar. Ele vai ter seu percurso feito e não seremos nós quem vamos detê-lo. Teremos, sempre, de acompanhar o ritmo dele e torcer para que esteja a favor do nosso, caso contrário, sentiremos a força de algo que era invisível para nós até então: o ar.
A segunda é que podemos morrer aqui mesmo, no meio. Acho que pode ser por inanição, por desidratação ou até mesmo asfixiamento. Invariavelmente, sofreremos. Invariavelmente, sentiremos.
O percurso natural é o que mais me preocupa e ao mesmo tempo me traz a serenidade porque, veja, não há como ser alterado. Não importa nossos esforços, nossas rezas, nossos medos; vai acontecer independente de nós e isso me conforta porque me tira a responsabilidade e a culpa do que acontecer. Daqui umas horas, daqui um mês, que seja, simplesmente acontecerá e nós podemos estar aqui ou ter encontrado um jeito de sair. Podemos, até, ter sobrevivido e o vento acabado, a tempestade se esmiuçado e a calmaria restabelecida.
Seremos, de alguma maneira, sobreviventes ou história.


3 de agosto de 2016

oasis de um velório

Tanta gente apertando minha mão e doando abraços em nome de um sentimento que eu não entendo ou reconheço em mim. As inúmeras coroas de homenagens disputando espaço no cômodo, pessoas querendo se aproximar de mim e da minha família, proliferarem suas palavras de respeito ou hipocrisia acerca do patriarca. Levanta daí, grito em silêncio para o corpo de meu avô. Levanta daí e acaba com essa palhaçada. Minha mão já está vermelha, meus dedos dormentes e meus olhos secos. Se incomoda? Sim, sinto-me incomodado diante do fato nítido de que todos choram - menos eu. Que coisa. Chorei muito quando pequeno imaginando esse dia e reconheço a dor no peito, tão maior e mais aguda do que apenas a ideia de. Minha mãe, de olhos inchados, boca inchada, nariz escorrendo, lenços de papéis na mão, me diz para sair. Esse cheiro de flor está dando dor de cabeça em todo mundo e eu sigo o pequeno fluxo de gente para fora do velório. Seis mortos enfileirados em salas. Rio com a perspectiva. Meto a mão no bolso da calça procurando a carteira. Um suco, uma água, uma pinga. Qualquer coisa que faça minha mente perturbada momentaneamente esquecer um pouco do que está acontecendo nas minhas costas. Quero correr. Mas não vou. Incrível que de todas as pessoas ali - e não sou poucas; meia cidade e outras cidades, parentes que não me são familiares - é você quem está apoiada na minha mente. Que coincidência seria poder, por milagre desse mundo de acasos, te atrair para cá. Mesmo que faça anos que não nos falamos, mesmo que faça anos que não entro furtivamente pela sua janela à noite. Anos de uma adolescência estranha. Só que ao te ver ali, braços cruzados, Ray Ban preto e quadrado, o nó no cabelo, roendo o canto da unha, a ideia da dor começa a se materializar. Você desvia a atenção do dedo para mim e quero acreditar que ostenta o olhar para mim, transmitindo a sua experiência nesse assunto e situação tão desconfortável que parece lascar minha pele com navalha afiada. Como navalha afiada. Ou sem corte? Definitivamente sem corte. Dói mais quando percebo essa comparação. Como. Sou "como": uma comparação diante a tanta dor. É que saudade dói, não é? É que também parece que você tem o antídoto e eu não percebo quando estou abraçado e chorando sobre o seu ombro - e, ainda, não percebo que você está sim me abraçando também. Então percebo que você foi atraída para cá na conspiração da minha vontade por um milagre. A peça não pertencente a esse quebra-cabeça. Ninguém ali dentro pode me proporcionar o conforto porque todos estão inseridos no mesmo contexto e em casa também só vai ter dor e não posso abraçar minha mãe porque sinceramente não quero começar a imaginar e desenhar a ideia de perder meu pai ou ela e não posso abraçar meus irmãos porque nossas dores não são comparáveis e saudade dói. "Não dói" você me diz. "O que dói é a perda mesmo". E é você, de novo, dizendo que o que eu tô sentindo não é válido ou errado. Você pega um graveto e quebra ele e entrega nas minhas mãos. "É assim que é: a ruptura do que a gente é acostumado, mas, depois, se acostuma com o novo. Antes era um graveto e agora são dois". Te mando praputaqueopariu. Não desmoralize meu sentimento, que não sei dar nome, não sei como senti-lo, mas não desfaça esse momento. Você me abraça e conta um segredo: todo sentimento, mesmo que misturado e mesmo que as palavras não correspondam a ele direito, é válido e jamais pode ser desmoralizado.Minha dor é só minha e só faz sentido para mim exatamente porque está sob o meu contexto e ninguém nesse mundo tem o meu contexto, exatamente igual ao meu. Você segura meu rosto entre suas mãos de dedos compridos e unhas mordiscadas e me sorri. Entre tantos, você é quem veio aqui. "Eu tinha que vir, porque eu sabia que você ia precisar de um abraço de fora". E vai embora. E vai embora me deixando aqui entendendo algumas coisas - raciocinando sobre algumas coisas, não necessariamente entendendo e, que droga, já estou pensando como você. Será que se eu escalar de novo sua varanda a gente consegue ficar? E exatamente porque eu estou pensando como você nesse momento que dou risada sozinho. Volto para o cômodo de cheiros nauseantes e coroas com frases sem sentimento imaginando qual será o próximo evento milagroso e conspiratório em que nos daremos às caras novamente.

11 de julho de 2016

Marco Zero de São Paulo

Olho vocês caminharem, maravilhados, entre as pedras que tanto conhecemos. Estão estupefatos pela monstruosidade que a arquitetura se revela aos olhos nus - entendo que sejam virgens da cidade. Entendo a curiosidade que as imagens atiçam e alimentam. Cada detalhe, de cada uma, de cada prédio, de cada concreto que já foi desbravado por nós e a gente nem sabe direito se entende essas informações.
Não sei se vocês também entendem, mas as roupas limpas, os tênis nos pés, cabelos limpos e celulares na mãos me fazem acreditar que vocês devem conhecer cada pedaço dessa terra e cada história.
A História, quero dizer, porque eu conheço a história desse lugar.
A história de cada um que, esquecido por essa cidade, procurou abrigo exatamente onde ela começou. O único lugar que poderíamos ser aceito é exatamente o lugar em que se aceitou todo mundo quando os bandeirantes chegaram. E Sé lembra muito Fé - que possuímos ou nos possui? Conheço o olhar triste de quem não sabe qual é a sua real identidade e por que ainda vive nesse mundo; o olhar esperançoso de uma estendida de mão pedindo um trocado. E daí que é para uma pinga? E daí que é para a comida? E daí que é para uma pedra? Não entendem que é o que nos restou... o que restou de nós?! Quando nem mesmo o fisiológico pode ser atendido, restam apenas os vícios. Uma hora a gente morre e, às vezes, rezamos para que o tempo se encurte - mas existem momentos em que queremos que ele se estenda ao máximo para vermos ao máximo.
Conheço as histórias não de cada pedra ou estátua, mas de cada corpo que circula comigo e dorme ao meu lado e me olha com um pedido de ajuda ou com uma ajuda a ser dada.
Gostaria de que nos olhassem da mesma forma, maravilhados, estupefatos e curiosos, pois somos sombra da história e quase tudo que existe nesse mundo faz sombra.

Estamos existentes, entendem?

17 de junho de 2016

Pedido Calado da Escolha

Aos olhos fechados
e boca selada.
Silêncio que paira
em meio aos achados.
Sou dois parceiros
da arte de esconder:
escondo esses lados todos interesseiros
sobre a vontade de ser.

Às Brasas


Desculpe entrar na sua vida justo no único momento em que ela não se encontrava mais. No meio do corredor, atravessando às pressas e sem atenção, enquanto você - ou o que você nos deixou - me cortou a passagem e me fez parar.
Desculpe saber de sua existência quando o contrário se tornou verdade.
Desculpe, Amanda, não ter conhecido um pouco sobre a sua idade, suas vontades e acerca do que te afligia. Mas você, o seu corpo já coberto pelo pano branco, com médicos às pressas de te levarem daqui, me fez parar e respirar: o efêmero desapegar-se-á do material em um piscar de olhos.
Desculpe.

CTI Pediátrica
16 de junho de 2016

29 de abril de 2016

João e Larissa

Poder-se-ia, pois,
na eternidade de um eco
ser o seu nome.
Forte no começo
e ondas a se propagarem.
O som se cala
E ondas continuam.
Somente
seu nome
no silêncio da eternidade.

6 de abril de 2016

Lembranças - lágrimas - da Madrugada

Por muito tempo o desejo único era que, diante de circunstância iguais de crescimento, o ser humano também se parecesse. E não é que veio a ser todo ao contrário?

Queria saber quais sãos as memórias que o cercam para entender qual síntese fez sentido dentro de você. O que eu lembro eram das noites dele sentado na minha cama me contando de novo a história do Pequeno Polegar, e só mais uma vez. Lembro das histórias da hora de escovar os dentes e como era difícil pronunciar "micróbio", e que ele me ajudava a alcançar a pia porque nem as pontas dos pés me davam a vantagem de ficar maior que louça.
Ele escovou seus dentes também? Porque ele bem que tentou me ensinar, mas acho que preguiçosa era minha condição desde nova.
Estávamos ambos sentados diante da imensa mesa de madeira, virada para a estante cheia de livros. Livros de nomes difíceis, enciclopédias com imagens curiosas. Primeiro o B, depois o R... como? Érre. Difícil esse daí, hein? Mas aprendi. BRUNA eu escrevi por todos os lugares, inclusive no couro do carro com giz de cera branco. A letra torta de quem acabara de decorar a sequência, mas tentei dizer que não fora eu.
Vai que ele acredita? Não acreditou.
E tinha a tarde no parquinho e ele desenhou um rosto na areia. Desenhou não. Moldou. Queria fazer igual, ter aquela habilidade de poder criar rostos que eu quisesse. E tinha você me contando sobre os moldes das nuvens e, que coisa!, como eles se assemelhavam aos cavaleiros de bronze de Cavaleiros do Zodíaco!
Ele chegava do trabalho e eu tinha que me esconder. Era a hora da judiação - em que vocês vinham ao meu encontro para fazer cócegas (cosquinhas lá em casa), e justo na época em que eu acreditava ser capaz me esconder debaixo do edredom. Azar o meu, sempre fui encontrada.
O que me remete muito à lembrança é o fato de nunca ter compreendido o que ele fazia: sabia que era Física, mas a única física que eu conhecia era a da educação. Logo, meu pai era professor de Educação Física na UNESP (que também não sabia o que era, apenas que era a escola do pai). A quem me perguntava a profissão dele, a resposta era dada na lata - e dono da UNESP.
Ele nos levava para comer lanche naquela lanchonete que hoje é loja de tinta. PIN. Vamos lá no Pin comer. Sim, vamos. Eu confesso que não gostava muito: os bancos fixos ao chão não me permitiam chegar perto do balcão.

Não me lembro de estudos, não me lembro de números. Lembro da enciclopédia Barsa em seus vinte e tantos volumes; da noite em que ele e mamãe me ajudaram a fazer a pesquisa sobre frutos com os volumes Barsa e eu só estava na 2ª série... Dormi sobre as páginas e eles continuaram por mim. Na 2ª série acho que descobri que escrever era bom. Tinha aquela redação sobre como fora meu dia e usei folha de fichário verde com a cara do Mickey estampada - para, no dia seguinte, ouvir da professora que estava incompleto (Poxa! Foi frente e verso!).
Houve brigas. Algumas me machucam até hoje só de lembrar e eu era tão nova naquela em específico. Devo tê-lo magoado também - ele percebeu que a pequena dele era egoísta e materialista aos 9-10 anos.
Outras memórias criadas me atingiram com o passar dos anos. Descobri o leve desespero paterno ao ver a filha escolher filosofia - e sei que outras aflições o enlaçam quando me vê aqui, ainda perdida, insegura e medrosa.

Dela as lembranças são resumidas em sentimentos: colo, carinho, companhia, amor. AMOR. O cuidado diário. A preocupação maternal eterna. Intrínseca. Inata. As mãos dadas até a padaria, e como eu era menor! Tinha que esticar tanto o braço para cingir seus dedos! Os trabalhos escolares e desenhos colados nas paredes do quarto, as caixas de giz de lousa compradas, os lápis de cores, os gizes de cera, gizes de pastéis... cadernos, papéis, glitter, cola, tesoura, borracha, canetas, estojos e brincadeiras.
Ela me deixava brincar a tarde inteira de loja, de supermercado, professora; comprava os bichos de pelúcia para mim e todos eram meus cachorros. Ela cedia o lençol para as minhas cabanas: em cima da minha cama, no meio da cozinha, no canto da sala. Cedia as cadeiras, os prendedores, as toalhas.
Lembro daquela noite em que passei muito mal. Como eu já odiava vomitar a noite toda: e ela acordava, segurava meu cabelo, minha testa e me pedia para fazer força. Arrumava meus cabelos depois, escovava meus dentes e me colocava para dormir junto dela, expulsando papai do lugar dele. A febre aferida. A dor de ouvido curada. A diarreia intermitente.
Ai, como criança é bixenta!
Mas ela sempre estava ali.
Teve uma época em que eu não conseguia dormir à noite: me batia o medo de perdê-los naquela madrugada! E ela vinha até mim, na cama, e me ajudava a dormir. E não é que ainda cabemos na cama de solteiro juntas?
Aonde ela fosse, eu estava junto. Hoje entendo que era a necessidade: ela tinha que me levar junto. Mas eu era a companheira: médico, vó, loja, padaria, supermercado, tia Dete, buscar o Danilo... eu estava lá, esperando para que voltássemos para casa.
Para mim, tudo se convergem em um único ponto: a mão dada.
Você entende a bondade e o amor que ela transborda? Ela é rainha, cuidadora do reino, das pessoas. Rainha dos sentimentos humanos e conhecedora de boas intenções somente. Olhá-la, hoje, me remete a uma única constatação: deveríamos, ambos, ser mais como ela. A rainha dos teimosos (você, eu, papai).
A facilidade da comunicação com ela. Se com ele há os rodeios e o medo, com ela é o contrário: é na lata, é na hora, é da forma que vier - e ela me entende, e quando não, se esforça. Ela presta atenção; faz tanta coisa ao mesmo tempo, mas presta atenção. E presta atenção em mim. Sabe exatamente como sou e eu nunca precisei listar nada. Ela me vê sem o físico, enxerga bem no fundo e muitas vezes nem precisei abrir a boca para ela saber como eu me sentia.
Esse elo eu não sei você entende. Nem eu entendo, mas faz sentido.
Você e eu já a magoamos também. Sem querer, propositalmente, sem jamais perceber.E pedimos milhares de desculpas sinceras em meio a alguns choros.
Dela eu lembro sempre de carinho sincero.

Pois bem, eu só queria entender porque somos tão diferentes. Se o fato de você ser o primogênito é o coeficiente determinante na nossa conta; se a sua sintaxe é de outros elementos. Do que você se lembra? O que foi construído em você?

31 de março de 2016

Carta 1 - Herança de Super Herói

Minha querida,

se enfim esta carta está em suas mãos é porque algo aconteceu. E se necessariamente esta carta foi escrita e hoje está em suas mãos é porque me conforta seu sentimento de paz com a situação. Algo em seus olhos sempre brilharam diante do fantástico, curioso, misterioso, e posso assegurar-lhe que isto é a máxima desses substantivos, querida, e muito feliz fico em saber que experimentei o que tanto lhe aguçaria a atenção, porque, veja, sempre me encantei em como você nunca escondeu o que lhe interessava - assim mesmo, no antagonismo de "sempre" e "nunca" porque não houve falha na minha ação e nem na sua.
Você e eu, querida, era a magia das premissas verdadeiras. Eram seus olhos me procurando no campo, perguntando, perguntando e levantando hipóteses absurdas e criativas para as razões do mundo. Éramos super heróis de gerações separadas. Você, pequena e aparentemente frágil, chegou para balançar as estruturas masculinas de gerações de homens. Eu, bem... eu nasci muitos anos antes para preparar seu pai na jornada futura de criá-la.
Ele fez um ótimo trabalho - sua mãe e ele, claro, afinal, quais olhos castanhos brilham em você senão os dela, em interesse pelo cuidado do outro? Não nego que a imaginava de olhos azuis, a brilharem e saltitarem pelos campos, pelos corredores, pelas salas, mas vieram castanhos, muito castanhos e sóbrios e atentos para o mundo.
Querida, não houve nada entre a gente. Não há motivos para garantir a existência do que não se explica, mas isso não implica o contrário. Nós éramos nós e isso, com o tempo, me bastava.
Pois bem, minha querida, é exatamente pelo nosso "nós" que pensei muito pouco sobre o que deixaria sob seus cuidados. Foi muito fácil decidir - sempre foi. Escrevi e reescrevi essa carta muitas vezes ao longos desses 25 anos, sempre sabendo exatamente o que destinar a você quando chegasse a hora. A cada descoberta do seu novo interesse, queria proporcionar a melhor experiência e surpresa... porque bem sei eu que você é adoradora de surpresas. Quando pequena, deixaria aquele quadro caótico do meu escritório para você de tanto fascínio que ele te proporcionava. Você se lembra de quando se sentava na minha cadeira, sem altura para atingir os pés no chão ou para ter visibilidade na minha mesa, e falava sobre todos os sentimentos e histórias que vinham em sua mente e coração? Explosão caótica de imaginação, denominei.
E experimentei tal por todos os anos de sua existência comigo.
Hoje deixo outras coisas. O quadro não se encontra mais lá, mas outras coisas nos encontraram. Atingiram-nos. Ao seu encargo, pois, estão os livros. Todos. Exatamente todos os meus livros - incluindo meus diários e cartas que guardei com tanto carinho. As tantas cartas que recebi de sua avó e, alegre-se, as cartas que escrevi a ela (sim, querida, as recuperei após aquela incisiva sessão de perguntas sobre como fora nosso namoro. Você acendeu sentimentos de um jovem de 16 anos em um homem de 67 e eu precisava daquelas cartas).
Esse é meu pequeno tesouro particular e sei que em você a mesma denominação é feita.
Entrego, também, sem medo de qual destino você queira dar depois, as minhas fotos. Mas as fotos são papéis representativos do que verdadeiramente dou a você.
Querida, unicamente a você entrego as minhas lembranças, em forma de fotos, livros, escritas. Confidencio a você todas as lembranças da vida desse homem de 85 anos, e sei como você se sente agora: o fantástico, o curioso e o misterioso.
Agradeço por encontrar na minha partida a paz que sinto.

Do Seu,
Vô.