11 de julho de 2017

Olliver

- É muito estranho ter um amigo que você pode dar um google.

Essa é a sua frase gota de água para nosso copo extremamente cheio para a nossa relação. A ideia de que eu nunca te dou nada além do que todo mundo já sabe ou possa vir a saber sem nunca ter me encontrado pela frente te coloca uns dois passos atrás nisso. Você é diferente porque seu nome não está lá. Se estiver será na lista de aprovação da faculdade e no registro do Facebook (com suas próprias palavras), fora a busca cruzada com nomes de alguns familiares próximos.

Tão dramática.

Ou pelo menos assim por enquanto eu te acho porque, em verdade fria, não te conheço muito bem. Acredito em que em cada sentença sua dita muito rápido é para pontuar um certo humor e esconder uma certa verdade. É o que eu sei sobre você.

- A gente sai para jantar e eu_

- Você sabe que não posso jantar. Preciso trabalhar.

- Você trabalha muito.

- É isso o que as pessoas que precisam de dinheiro fazem para conseguir dinheiro.

- E você tá sempre falando que precisa de dinheiro! - Tiro a carteira do bolso e a abro na sua frente e antes mesmo de tocar as notas com os dedos vejo sua imagem recuar no limite do meu campo de visão.

- Esse é o seu problema. Isso não é mais importante para você e aí você acha que eu fico o quê?, disparando mensagens sublimares quanto a fazer você agir dessa maneira?

- Estou propondo uma solução para o seu problema - digo com um tom mais firme e alto enquanto volto a carteira para o bolso da calça.

E você começa a gesticular e falar tão alto quanto eu:

- Não é problema, é uma condição. Pessoas precisam de dinheiro o tempo todo. E pessoas ordinárias, normais, fora do deslumbre de um emprego que algum dia venha a pagar muito bem, precisam trabalhar para ter dinheiro, o mínimo que seja, mas precisam.

- Posso te arranjar um emprego melhor.

- Não quero um emprego melhor. Eu gosto do meu. Por hoje ele é suficiente. O que eu quero de você daqui para frente é que legitime minha condição.

Eu espero. Espero mesmo que você me dê as costas e vá embora, embarque em um avião qualquer e se aporte em outra cidade qualquer. Foi o que você fez com a sua família, por que não fará com alguém que conhece há poucas semanas?

- Estou aqui para mudanças, e se eu entrei na sua vida é porque você também precisa.

- Um café da manhã depois do seu turno então?

10 de julho de 2017

Se tu fossi nella mia anima un giorno

De olhos vidrados para um além que eu não via, sua imagem me assustou. De todas as pessoas, eu jamais apostaria em você. A reclusão. A ausência. A falta de informação. Não de você.

Besteira mesmo foi me ver naquela situação, meio ao desespero, meio à incredulidade, em que você, voluntariamente, se pôs e - pior! - não me incluiu.

- Estou exausta, é só isso.

O pijama amarrotado, uma meia de cada pé, os esmaltes dos dedos pelas metades e um brinco faltando na orelha. "Estava me incomodando", você me disse depois. Fazia anos que eu não via suas orelhas com um único brinco ausente. Fazia anos que você aportou nessa cidade e me tornou dependente dessa amizade - então, por favor, alimente meu vício.

- Você precisa descansar. Largar o pé e deixar que as coisas fluam um pouco sem você.

E de todas as pessoas no mundo, você era a última que eu achei que diria tais palavras. Você, a preguiçosa, a desleixada, a chorona pelos cantos porque o mundo não era bom o suficiente para sua falta de prática e vontade. Ah!, os lamentos sarcásticos com resquícios de uma mágoa mais profunda. Mas, ainda com os olhos apáticos, sem sorriso de brincadeira, sem tons irônicos e sem movimentar as mãos que estavam escondidas entre as pernas, você me deu a resposta. Precisava fazer, precisava fazer qualquer coisa, desde que o verbo se mantivesse e os predicados se seguissem pela cascata de peças de dominós.

- Estou exausta - você repetiu para mim, com um leve semblante menos petrificado e mais humano que a sua ânima lhe deu ao tocar meus dedos em seus joelhos, e o medo que me acometeu me fez desejar sua exaustão para os demais dias de nossas vidas desde que você estivesse viva o suficiente para então assim poder se sentir.

- Então se sinta assim, exausta.

15 de maio de 2017

(des)encontro marcado

Existe um desejo ruim ao ser expectadora de filmes: a projeção para a vida real às vezes é inevitável (Marvel e DC inclusas), e você também espera por aquele grande momento do roteiro em que as tensões são tantas que você será pulsionado para algo maior. E isso me faz pensar se cada conversa casualmente feita em mesas de almoços (por exemplo) é aquele ponto de mudança em que minha vida precisa para se tomar algumas decisões.
Não quero levantar a validação da expectativa de que a vida seja de alguma forma parecida com um enredo, mas pontuo o fato de, então, dar mais atenção e reflexão acerca das conversas casuais que surgem sem querer. Apesar do meu esforço em me mostrar interessada por aquilo que em nada me chama atenção, o exercício de realmente ter que prestar atenção para conseguir manter minha teimosia intacta e bater firme o pé diante da visão embaçado do outro faz-me ver-me quase inclinada a ceder e imaginar que aquele momento é o meu momento.
As palavras que precisava ouvir para tomar um rumo.
O discurso completo de um raciocínio mais amplo.
Mas, como disse, teimosia intacta em alicerce, penso, reflexiono, e não consigo crer nas minhas próprias vontades.


11 de maio de 2017

3º Ato - Ela.

(Foi um brilho
- de rápida propagação
e de igual finitude e vazão).

Sua não existência até ali
se fez presente
na sua presença
diante de mim.

Estava escondida
entre as coxias
na lástima de uma dúvida
- pura bobagem -
sobre se era assim a vida.

(Sua vida)

e se fez presente para mim.

Nas mãos estendidas
e a curiosidade acrescida
eu trouxe aos seus olhos outro
brilho:

de um outra visão
de um único respingo
para a imensidão
das tantas escolhas
postas em seu caminho.

Foi num brilho
- ríspido -
pura policromia,
que entregou a minha languidez
meu projeto de me sentir
em (sua) vida.

4 de maio de 2017

Girafas

Em algum momento algumas coisas precisam ser repensadas pelo simples motivo de que é impossível permanecer o mesmo conforme o ritmo é ditado por forças externas. Quando tais forças atingem a pele e transpassam para além de sua matéria é o exato momento em que as forças internas começam a borbulhar e se chocarem fortemente.
Física, podemos dizer.
Mas é importante notar que a irredutibilidade das certezas de um ser humano é uma premissa falsa. Dotados da capacidade de adaptação, nos adaptamos até a nós mesmos - porque sempre há algo nos cutucando, - e precisamos repensar; e a mais difícil decisão é não outra senão a percepção de que o que antes fazia sentido hoje não faz mais e é preciso deixar as verdades antigas de lado para as dúvidas de agora encontrarem um terreno fértil o suficiente para que algo seja capaz de crescer e criar raízes de novo.
Difícil, também, quando nos vemos apegados até mesmo às ervas daninhas do nosso jardim. 
Fez sentido há cinco anos e hoje não faz mais tanto sentido. Fez sentido aos 18 anos e hoje não tem nem sentido e nem direção. Há dois anos, um, meses, dias, horas... A mudança é cíclica quando jovem.
A mudança incomoda mesmo que ainda seja jovem.

(From: Google Images)

4 de abril de 2017

O dia em que a pomba entrou em casa

O primeiro dia de aula diferente e fora das órbitas normais da minha vida se iniciou e todos estavam ansiosos: papai, mamãe, namorado e eu. Nascida, criada e acostumada com a dinâmica de uma cidade de interior, essa foi a primeira vez em que me aventurei em terras paulistanas e pelas linhas azul e vermelha dos metrôs.

O fato, claro, foi antecedido de grande pico de adrenalina e frustração uma vez em que meu celular não despertou e em menos de 8 minutos tive de trocar de roupa, escovar os dentes, ignorar um café da manhã e qualquer questionamento sobre a qualidade do cabelo amanhecido - e algumas leis de trânsito também

Tudo certo, tudo muito certo.

Às 16:30h estava já dentro do carro dos meus pais tentando tagarelar sobre a explosão de animação diante da nova aula, a ansiedade patológica diante de pessoas novas e necessidade de me socializar, mas o cansaço me pegara - e minha amiga passaria em casa para me buscar para nosso café em breve, muito em breve.

Minha mãe deixou ao meu pai e a mim em casa e saiu. Meu pai me disse que iria na padaria e já voltava. E eu fiquei ali, no aguardo da carona.

Mariana - acompanhada de outra Mariana - apareceu no horário e no horário também surgiu uma pomba.

Uma pomba.

Robusta, cinza e sem qualquer medo de mim (e a recíproca estava longe de ser verdadeira).
Fazia cinco minutos que meu pai tinha saído e um que minhas amigas estavam me esperando dentro do carro sem entender porque eu não abria o portão e saia de uma vez. Acontece que o ser alado diante de mim bateu as asas e veio em minha direção e eu, rápida e sabiamente, me joguei contra a parede e observei a cagada da escolha feita por mim com o bater das asas da pomba para dentro da sala de casa.

Veja: o portão de casa é de grades; a área da casa tem a porta da sala e do quintal (que estava fechada). Qualquer outro lugar que eu tivesse me jogado, a pomba se debateria pelas paredes e conseguiria, em algum momento, sair pelas grades do portão. Obviamente que as coisas não acontecem da melhor forma possível quando você está atrasado.

Tentei gritar para as minhas Marianas que tive um pequeno contra-tempo na saída, mas achei viável lidar com a situação e não perder mais tempo com aquele animal. Corri para dentro da sala na esperança de persuadir a pomba e voar de volta pela porta certa e ir embora para eu conseguir sair com as meninas e meu pai poder chegar em casa sem perceber qualquer movimentação estranha.

Decisões erradas tomadas nessa estratégia à parte, a pomba acabou por ficar presa atrás do imenso sofá.

Decidi enfim noticiar o fato para as meninas: abri o portão (o de casa é na chave mesmo) e fui até o carro quando vi meu pai se aproximar, feliz, calma e assertivo, com a sacolinha na mão, contente por ter conseguido encontrar o leite tipo A de que ele gosta e, pouco a pouco, suas expressões foram murchando e abrindo espaço para outras: primeiro veio a Dúvida de me ver do lado de fora do carro, apoiada sobre o vidro e o portão ainda aberto, depois o Receio ao me ver sorrindo para ele já com os braços abertos para uma recepção falsamente calorosa e, então, a Decepção ao meu ouvir dizer:

- Então, tem uma pomba na sala.

"Você acabou de chegar e te deixei sozinha por 5 minutos. Qualé o teu problema?!"

Entrei no carro e ainda pude observar papai parado diante do portão aberto olhando para dentro de casa.

17 de fevereiro de 2017

O Gato de Schrödinger

Vou dizer que a ciclicidade do tempo é arrebatadora, mesmo que previsível - e eu já escrevi esse texto algumas vezes nos últimos 8 anos: é muito difícil conseguir perceber qualquer atitude do mundo externo quando o interno tem se mostrado muito capacitado em aumentar vazios e modificar espaços. Existem maiores arrependimentos que o "e se": é ele somado à escolha errada. Eu não sei - vou continuar a dizer; eu não sei - vou insistir para você, porque a verdade é essa: eu realmente não sei. Perdoe-me se antes eu fui eloquente e conseguia conduzir nossa hora de forma clara e cheia de reflexões e sinceridades mais otimistas, mas agora não consigo.
Como posso elucidar em voz alta algo que nem em pensamento está fomentado? E quando eu tento - porque eu juro que tento - nada se organiza, o caos se estabelece maior ainda e somem-se as cartas nesse vento todo. E tem ventado muito aqui.
Queria poder pôr em poema, poesia, linhas quebradas para encontrar o mais profundo predicado para esse verbo que me encontro - mas, confesso, as perspectivas no momento não são das melhores e têm levado embora até o "gosto e faço". Desculpe pelo clichê da geração, eu mesma que quis fugir e me ver única estrela caio entre os meados no mais fácil - e esse medo me acerca de forma grande: optar pelo mais fácil.
Mas eu quero ser feliz - mas ser feliz não diz respeito a fazer o que se gosta; no entanto, você precisa abrir esses olhos e compreender que quando em nada lhe dá a faísca para enfim enfrentar o que não se gosta quer dizer que não há felicidade de forma alguma. Não há qualquer estado de felicidade nesse caos e o que é a busca por ela senão necessária para nomear o Medo e o Caos? E agora em letras maiúsculas porque se personificaram entre uma linha e outra.
Vou continuar a bravejar contra o divino para que ele ceda às minhas argumentações e entenda, de uma vez por todas, que essa cruz está mal ajeitada em minhas costas e ombros e eles literalmente doem. Minha vista tem brilhado algumas vezes por dia e, digo, é bonito - se possível.



25 de janeiro de 2017

Saudade de casa?

Sei que era para ser uma pergunta de fácil resposta, mas é tão dúbia quanto a oportunidade. Se por "casa" você se refere ao estabelecimento em que moro agora, não, não sinto saudades. Mas se tiver qualquer resquício de "lar"... O lar fica longe. Longe - ali onde meus pais moram sob a construção física do único lugar em que conheci até a idade adulta, e com as únicas pessoas que sempre estiveram comigo desde o meu nascimento.
E antes dele - além de mim mesma.
Mas, por favor, não adentremos em tais assuntos. Deixo-o com o benefício da dúvida e eu com a amargura da duplicidade da resposta.

20 de janeiro de 2017

e de Austen não houve nada

Direciono você, querida,
para além de nós dois, postos dentro desse limite específico - e físico -, querendo na verdade borrar-nos para depois da margem e não ficarmos presos à ela. Quem dera eu poder te levar para depois de nossos seres, poder te ver crescer, expandir e ocupar toda a dimensão não linear, etérea, de nossos corpos, ver as ramificações incessantes e incontroláveis de sua mente e poder, uma única vez que me deixasse, te ver criar.

Vejo por dentro do seus olhos que a todo instante tem um fio de pensamento que se desmembra em ideia e então cada fio e cada pena se juntam e se recriam em combinações infinitas envolta do mesmo cerne. Não há pergunta sobre "o que". São tantas coisas, tantas imagens, tantas sensações que são espelhadas nas íris de seus olhos que me pego pensando se algum dia realmente suas ideias já foram transmitidas por elas.

(Ou se chegam até ali e refletem-se para dentro de seu cérebro, em todas as constatações fisiológicas que devo assumir, em todas as faíscas de pensamentos que você me faz assumir - mas não me permite realmente conhecer).


I want to trip inside your head 

Spend the day there… 
To hear the things you haven’t said 
And see what you might see
- Miracle Drug,U2 -

3 de janeiro de 2017

Olliver

A primeira vez em que te vi
o oceano você era para mim.

Não é metáfora.
Não foi amor.

Foi apenas eu descrevendo
seus olhos
menos dentro e mais para fora.

Ondas me prendiam.
Ondas me arrastavam.

A força imponente das águas
que me forçavam a mergulhar
fundo
muito fundo
a ponto de eu poder observar seu pensamentos.

Porém

não fundo o bastante
para entre os meus dedos
emaranhar seus sentimentos.

15 de dezembro de 2016

Sher Locked

E de tudo o que nós dois poderíamos ter dito e não dissemos, aquele seu olhar todo machucado, avermelhados, com cristais líquidos presos por um nó na garganta, foi o que mais soou alto como sinos catedráticos em dia de natal. Ironia à parte, à festividade, ao que eu não planejei fazer por nós dois, eu sinto muito. A minha inabilidade de não compreender a extensão do comportamento humano me faz enxergá-lo, algumas vezes, fragmentado. Sou muito bom com quebra-cabeças, mas só conheço os diagnósticos e não o sentir. Não sei o que você sente. Sinto o que você me proporciona: a ajuda em planos malucos, a rapidez de sua mão para um tapa na cara - e não leio além disso.



Sugestão para ouvir enquanto ler:

21 de novembro de 2016

Não foi "Adeus"

Pra USP fui selecionado
e para outra cidade você me levou.
Me deu uma abraço com o carro estacionado,
"Filho, agora é com você" e então chorou.
Me inscrevi sabendo dos 5 anos
e já imaginando a gente se formando.
Você, na primeira fileira sentado,
me aplaudindo e sorrindo por esta fase ter terminado.
No começo,
achei que o sonho era somente meu,
e com o tempo,
a cada retorno para casa tinha aquele abraço,
percebi que ele era também seu.
Você via em mim
uma conquista mútua;
fui seu projeto de uma vida
e tudo o que você queria
era que eu reconhecesse o valor da luta.
Me ensinou a ser gente,
aprender que gentileza,
em toda a sua leveza,
faz o outro se sentir potente.
O sonho hoje se concretiza em mim
nesse dia de roupas bonitas, canudos e discursos.
A saudade de você cresce com raiz
e em meu coração há sua Luz
me lembrando que hoje você está aqui.
O Amor que nasceu em você
quando para o mundo eu surgi
não acaba na ausência física do ser.
Cresce e expande
em velocidade crescente
quando vejo que me tornei gente;
na paz que no meio da tormenta aparece
e no choro calado da saudade que se tornou a minha prece.
Hoje tenho com o meu nome o diploma
que vem gravado nas entrelinhas
a sorte de sermos pai e filho nessa vida,
a primeira escola e até nossa primeira briga.
Carrega seu nome e o nosso amor
que me fez chegar exatamente onde estou.

*escrito para tentar ser selecionado como discurso dos Pais Ausentes na colação de grau.

12 de outubro de 2016

voando de braços abertos
sem nuvens sem ar
sem pensamentos
para me fazerem parar
e voando à frente e a esmo
tudo o que toco com o dedos
é
puro sentimento.

10 de outubro de 2016

O Importante Mesmo Era o GRUPO

No ingresso de uma universidade
a única escolha da nossa idade:
o melhor lugar
para sairmos profissionais.
Implícito não estava porém
que junto comigo
haveria outros alguéns
tão diferentes dentro do mesmo artigo.
Formamos um grupo tímido
- estranhos e desconfiados -
com medo de não conseguir um único amigo.
Qual a chance de selecionar 30 pessoas desconhecidas
e encontrar ali pessoas para serem íntimas?
E a convivência chegou
provando que aos poucos se enxertou
as personalidades mais improváveis
dentro das mesmas vontades.
Éramos peças separadas,
incapazes de enxergar
que um dia formaríamos uma imagem aparada
da ida até um pôr-do-sol nessa caminhada.
Brilhamos na improbabilidade.
Entre nós surgiram presidentes de entidades.
Entre nós, algumas aceitaram o peso da nossa representatividade.
E não é que a longa jornada
encontrou a bifurcação dessa conjunta caminhada?
Cada um para uma via
carregando as mudanças
que aconteceram nesses dias.

Vamos à vante, turma x.

28 de setembro de 2016

Vontade de Ser

De olhos fechados
e boca selada.
Silêncio diante dos achados;
sou hábel na arte de esconder.
Pois sou o lado interessado
na arte de inverter
a vontade de ser.


observação: tcc cansa a mente.

22 de setembro de 2016

Ela Vai Voltar

Foi no meio de todo o barulho que a música deveria não ser e somado às tantas conversas conjuntas que deveriam sobreporem-se à música que os fonemas de um nome chegou aos meus ouvidos. Parecia que todos sussurravam os sons daquelas letras juntas e que seus olhos me contavam que algo estava para acontecer.
Você foi embora muito cedo. Você foi a minha paixão platônica aos 9, 10 anos e minha aventura aos 18. Achei que ficaria, que a última noite não seria de fato a última apesar de eu contar isso para todos os meus amigos. Não poderia dar o braço a torcer quanto a realmente estar ficando com a única menina que deixei se aproximar naquela fase em que a gente repele a própria mãe. Mas você se foi. Deu-me o último beijo, a última olhada nos olhos do banco do co-piloto do meu carro e eu não tive inteligência o suficiente para entender que era um adeus.
Bobo como fui, cri cegamente que haveria em breve um novo encontro.
Isso há mais de 10 anos.
Corri para a rua para frouxar o colarinho de uma camisa sem botões abotoados. O modo como todos fofocavam sobre a sua vida me fez acreditar que se materializaria diante dos meus olhos ali naquele segundo. Mas que jeito?
Do mesmo jeito como meu coração bate a menor menção do seu nome.
Faz tempo, entende? Fez muito tempo e eu me sinto aquele garoto que pedalou até a mansão do seu avô para te ajudar a estudar. O suor, a palpitação, o fôlego cortado, os dedos trêmulos. Lembro-me do segurança me julgando pelo chinelo, rosto com suor sujo de pó e a bicicleta velha. Tirou os óculos escuros e me mediu de cima à baixo, comunicou-se com alguém, os portões se abriram e ele mandou eu pedalar, se tivesse coragem.
Eu morria de medo do seu avô.
Foi só em casa que eu descobri que a minha paranoia era verdade: você estava voltando. Celada em uma caixa de tom escuro e com aquele anel de noivado já preso ao dedo. Acidente grave à parte, achei que teria uma última chance de ver seus olhos castanhos e descobrir quais sardas foram aderidas com o tempo.
Quis o acidente de carro na ironia do destino levasse seus pais quando era criança, seu avô na idade adulta e hoje você.
A palpitação é a mesma.
A mesma de quando te vi pela última vez.

29 de agosto de 2016

Da Série "Como unificar todos os acontecimentos em uma única metáfora"

De tudo o que poderia nos acometer, nunca de fato idealizei o furacão girando conosco no centro. Parece a calmaria e podemos até sobreviver, mas ali do lado, nesse cone gigante e violento, o vento gira com velocidade e força absurdas e capazes de nos estraçalhar. Se a gente levantar e sair do meio do furacão, podemos - e vamos - morrer. O impasse de uma situação fantástica e incrédula o suficiente para rimos histericamente, consumidos pelo desespero, pela prisão, pela morte eminente.
Daqui eu só consigo visualizar duas formas de resolução - e, desculpe, mas nenhuma será indolor. A primeira é o fato de que esse furacão vai andar. Ele vai ter seu percurso feito e não seremos nós quem vamos detê-lo. Teremos, sempre, de acompanhar o ritmo dele e torcer para que esteja a favor do nosso, caso contrário, sentiremos a força de algo que era invisível para nós até então: o ar.
A segunda é que podemos morrer aqui mesmo, no meio. Acho que pode ser por inanição, por desidratação ou até mesmo asfixiamento. Invariavelmente, sofreremos. Invariavelmente, sentiremos.
O percurso natural é o que mais me preocupa e ao mesmo tempo me traz a serenidade porque, veja, não há como ser alterado. Não importa nossos esforços, nossas rezas, nossos medos; vai acontecer independente de nós e isso me conforta porque me tira a responsabilidade e a culpa do que acontecer. Daqui umas horas, daqui um mês, que seja, simplesmente acontecerá e nós podemos estar aqui ou ter encontrado um jeito de sair. Podemos, até, ter sobrevivido e o vento acabado, a tempestade se esmiuçado e a calmaria restabelecida.
Seremos, de alguma maneira, sobreviventes ou história.


3 de agosto de 2016

oasis de um velório

Tanta gente apertando minha mão e doando abraços em nome de um sentimento que eu não entendo ou reconheço em mim. As inúmeras coroas de homenagens disputando espaço no cômodo, pessoas querendo se aproximar de mim e da minha família, proliferarem suas palavras de respeito ou hipocrisia acerca do patriarca. Levanta daí, grito em silêncio para o corpo de meu avô. Levanta daí e acaba com essa palhaçada. Minha mão já está vermelha, meus dedos dormentes e meus olhos secos. Se incomoda? Sim, sinto-me incomodado diante do fato nítido que de todos choram - menos eu. Que coisa. Chorei muito quando pequeno imaginando esse dia e reconheço a dor no peito, tão maior e mais aguda do que apenas a ideia de. Minha mãe, olhos inchados, boca inchada, nariz escorrendo, lenços de papéis na mão, me diz para sair. Esse cheiro de flor está dando dor de cabeça em todo mundo e eu sigo o pequeno fluxo de gente para fora do velório. Seis mortos enfileirados em salas. Rio com a perspectiva. Meto a mão no bolso da calça procurando a carteira. Um suco, uma água, uma pinga. Qualquer coisa que faça minha mente perturbada momentaneamente esquecer um pouco do que está acontecendo nas minhas costas. Quero correr. Mas não vou. Incrível que de todas as pessoas ali - e não sou poucas; meia cidade e outras cidades, parentes que não me são familiares - é você quem está apoiada na minha mente. Que coincidência seria poder, por milagre desse mundo de acasos, te atrair para cá? Mesmo que faça anos que nãos falamos, mesmo que faça anos que não entro furtivamente pela sua janela à noite. Anos de uma adolescência estranha. Só que ao te ver ali, braços cruzados, Ray Ban preto e quadrado, o nó no cabelo, roendo o canto da unha, a ideia da dor começa a se materializar. Você desvia a atenção do dedo para mim e quero acreditar que ostenta o olhar para mim, transmitindo a sua experiência nesse assunto e situação tão desconfortável que parece lascar minha pele com navalha afiada. Como navalha afiada. Ou sem corte? Definitivamente sem corte. Dói mais quando percebo essa comparação. Como. Sou "como": uma comparação diante a tanta dor. É que saudade dói, não é? É que também parece que você tem o antídoto e eu não percebo quando estou abraçado e chorando sobre o seu ombro - e, ainda, não percebo que você está sim me abraçando também. Então percebo que você foi atraída para cá na conspiração da minha vontade por um milagre. A peça não pertencente a esse quebra-cabeça. Ninguém ali dentro pode me proporcionar o conforto porque todos estão inseridos no mesmo contexto e em casa também só vai ter dor e não posso abraçar minha mãe porque sinceramente não quero começar a imaginar e desenhar a ideia de perder meu pai ou ela e não posso abraçar meus irmãos porque nossas dores não são comparáveis e saudade dói. "Não dói" você me diz. "O que dói é a perda mesmo". E é você, de novo, dizendo que o que eu tô sentindo não é válido ou errado. Você pega um graveto e quebra ele e entrega nas minhas mãos. "É assim que é: a ruptura do que a gente é acostumado, mas, depois, se acostuma com o novo. Antes era um graveto e agora são dois". Te mando praputaqueopariu. Não desmoralize meu sentimento, que não sei dar nome, não sei como senti-lo, mas não desfaça esse momento. Você me abraça e conta um segredo: todo sentimento, mesmo que misturado e mesmo que as palavras não correspondam a ele direito, é válido e jamais pode ser desmoralizado.Minha dor é só minha e só faz sentido para mim exatamente porque está sob o meu contexto e ninguém nesse mundo tem o meu contexto, exatamente igual ao meu. Você segura meu rosto entre suas mãos de dedos compridos e unhas mordiscadas e me sorri. Entre tantos, você é quem veio aqui. "Eu tinha que vir, porque eu sabia que você ia precisar de um abraço de fora". E vai embora. E vai embora me deixando aqui entendendo algumas coisas - raciocinando sobre algumas coisas, não necessariamente entendendo e, que droga, já estou pensando como você. Será que se eu escalar de novo sua varanda a gente consegue ficar? E exatamente porque eu estou pensando como você nesse momento que dou risada sozinho. Volto para o cômodo de cheiros nauseantes e coroas com frases sem sentimento imaginando qual será o próximo evento milagroso e conspiratório em que nos daremos às caras novamente.

11 de julho de 2016

Marco Zero de São Paulo

Olho vocês caminharem, maravilhados, entre as pedras que tanto conhecemos. Estão estupefatos pela monstruosidade que a arquitetura se revela aos olhos nus - entendo que sejam virgens da cidade. Entendo a curiosidade que as imagens atiçam e alimentam. Cada detalhe, de cada uma, de cada prédio, de cada concreto que já foi desbravado por nós e a gente nem sabe direito se entende essas informações.
Não sei se vocês também entendem, mas as roupas limpas, os tênis nos pés, cabelos limpos e celulares na mãos me fazem acreditar que vocês devem conhecer cada pedaço dessa terra e cada história.
A História, quero dizer, porque eu conheço a história desse lugar.
A história de cada um que, esquecido por essa cidade, procurou abrigo exatamente onde ela começou. O único lugar que poderíamos ser aceito é exatamente o lugar em que se aceitou todo mundo quando os bandeirantes chegaram. E Sé lembra muito Fé - que possuímos ou nos possui? Conheço o olhar triste de quem não sabe qual é a sua real identidade e por que ainda vive nesse mundo; o olhar esperançoso de uma estendida de mão pedindo um trocado. E daí que é para uma pinga? E daí que é para a comida? E daí que é para uma pedra? Não entendem que é o que nos restou... o que restou de nós?! Quando nem mesmo o fisiológico pode ser atendido, restam apenas os vícios. Uma hora a gente morre e, às vezes, rezamos para que o tempo se encurte - mas existem momentos em que queremos que ele se estenda ao máximo para vermos ao máximo.
Conheço as histórias não de cada pedra ou estátua, mas de cada corpo que circula comigo e dorme ao meu lado e me olha com um pedido de ajuda ou com uma ajuda a ser dada.
Gostaria de que nos olhassem da mesma forma, maravilhados, estupefatos e curiosos, pois somos sombra da história e quase tudo que existe nesse mundo faz sombra.

Estamos existentes, entendem?