31 de março de 2016

Carta 1 - Herança de Super Herói

Minha querida,

se enfim esta carta está em suas mãos é porque algo aconteceu. E se necessariamente esta carta foi escrita e hoje está em suas mãos é porque me conforta seu sentimento de paz com a situação. Algo em seus olhos sempre brilharam diante do fantástico, curioso, misterioso, e posso assegurar-lhe que isto é a máxima desses substantivos, querida, e muito feliz fico em saber que experimentei o que tanto lhe aguçaria a atenção, porque, veja, sempre me encantei em como você nunca escondeu o que lhe interessava - assim mesmo, no antagonismo de "sempre" e "nunca" porque não houve falha na minha ação e nem na sua.
Você e eu, querida, era a magia das premissas verdadeiras. Eram seus olhos me procurando no campo, perguntando, perguntando e levantando hipóteses absurdas e criativas para as razões do mundo. Éramos super heróis de gerações separadas. Você, pequena e aparentemente frágil, chegou para balançar as estruturas masculinas de gerações de homens. Eu, bem... eu nasci muitos anos antes para preparar seu pai na jornada futura de criá-la.
Ele fez um ótimo trabalho - sua mãe e ele, claro, afinal, quais olhos castanhos brilham em você senão os dela, em interesse pelo cuidado do outro? Não nego que a imaginava de olhos azuis, a brilharem e saltitarem pelos campos, pelos corredores, pelas salas, mas vieram castanhos, muito castanhos e sóbrios e atentos para o mundo.
Querida, não houve nada entre a gente. Não há motivos para garantir a existência do que não se explica, mas isso não implica o contrário. Nós éramos nós e isso, com o tempo, me bastava.
Pois bem, minha querida, é exatamente pelo nosso "nós" que pensei muito pouco sobre o que deixaria sob seus cuidados. Foi muito fácil decidir - sempre foi. Escrevi e reescrevi essa carta muitas vezes ao longos desses 25 anos, sempre sabendo exatamente o que destinar a você quando chegasse a hora. A cada descoberta do seu novo interesse, queria proporcionar a melhor experiência e surpresa... porque bem sei eu que você é adoradora de surpresas. Quando pequena, deixaria aquele quadro caótico do meu escritório para você de tanto fascínio que ele te proporcionava. Você se lembra de quando se sentava na minha cadeira, sem altura para atingir os pés no chão ou para ter visibilidade na minha mesa, e falava sobre todos os sentimentos e histórias que vinham em sua mente e coração? Explosão caótica de imaginação, denominei.
E experimentei tal por todos os anos de sua existência comigo.
Hoje deixo outras coisas. O quadro não se encontra mais lá, mas outras coisas nos encontraram. Atingiram-nos. Ao seu encargo, pois, estão os livros. Todos. Exatamente todos os meus livros - incluindo meus diários e cartas que guardei com tanto carinho. As tantas cartas que recebi de sua avó e, alegre-se, as cartas que escrevi a ela (sim, querida, as recuperei após aquela incisiva sessão de perguntas sobre como fora nosso namoro. Você acendeu sentimentos de um jovem de 16 anos em um homem de 67 e eu precisava daquelas cartas).
Esse é meu pequeno tesouro particular e sei que em você a mesma denominação é feita.
Entrego, também, sem medo de qual destino você queira dar depois, as minhas fotos. Mas as fotos são papéis representativos do que verdadeiramente dou a você.
Querida, unicamente a você entrego as minhas lembranças, em forma de fotos, livros, escritas. Confidencio a você todas as lembranças da vida desse homem de 85 anos, e sei como você se sente agora: o fantástico, o curioso e o misterioso.
Agradeço por encontrar na minha partida a paz que sinto.

Do Seu,
Vô.

10 de fevereiro de 2016

Parecia mútuo todo ato de estar junto. Parecia que tinha o acordo feito em silêncio e que não seria necessário dizê-lo sob nenhuma hipótese. Agir coerente quando perto e tão mais assim quando longe - longe dos olhos do outro.
Parecia recíproco.
Silenciosamente recíproco.
A tríade do pensar/falar/agir parecia inabalável, parecia verdade. Que o outro jamais trairia em alguma dessas circunstâncias, que o elo era inquebrável. Se um assim era, os outros obrigatoriamente seriam.
E parecia que havia uma outra tríade, um outro acordo. A mão que levaria ao fogo sem pestanejar ou tremer os nervos hoje queima em tudo aquilo que parecia.
Parecia que não, mas nem chegava perto da verdade. Se longe não é igual, qual então é pois a verdade?!

31 de dezembro de 2015

Ladi Di

O telefone tocava insistentemente. Chamada seguida de chamada, sem tempo notável. Parecia uma chamada longa e única que penetrava no seu sonho e ele atendia e diziam coisas horríveis. O susto de se ver acordado com o pesadelo o levou até a cozinha, descalço mesmo, com a perda de calor dos pés para o piso gelado. Aquela dor de cabeça leve porém insistente, como se tentasse alertá-lo de que era algo mais profundo e quase esquecido. Escolheu o copo comprido já em cima da pia e o encheu de água gelada. Tomou tudo em um gole só, apoiou as mãos sobre a pia e encarou o granizo ainda com a vista meio desfocada. Olhou seu reflexo então no vidro da janela e depois para o céu escuro daquela madrugada. Uma noite tão linda e ele acordado, com pesadelos, descalço e dor de cabeça. Estranho que havia no prédio da frente alguns cômodos ainda com luzes acesas, salas com televisões ligadas e pessoas paradas, em pé, diante delas. A dor de cabeça aumentou e ele apressou os passos até o telefone. Outras luzes lá fora começaram a acenderem rapidamente e ele quis correr até o telefone e atender aquela única chamada longa. O salto da boca ao dizer alô e não reconhecer a voz do outro lado da linha. Senhor. Chamavam-no de "senhor", perguntando se aquele era o número certo, e as paredes rodavam em torno dele de uma forma não lógica e o deixavam tonto, nauseado, e tinha aquela sensação de falta de ar e dor na boca do estômago como se algo o pressionasse ali com muita muita força. Queria vomitar, queria correr para o banheiro, ajoelhar no ladrilho e enfiar a cabeça na louça até quase sentir a água bater na ponta de seu nariz e queria levar consigo o telefone para não perder o time da confissão daquela madrugada, uma confissão que sua mente já entendia e seu coração pulava em negação. O acidente não fora culpa dela, mas, que coisa, aconteceu mesmo assim. O culpado não era ela e estava sendo operado naquele mesmo instante com grandes chances de se recuperar e voltar para sua casa feliz e ver seus parentes felizes e continuar sua vida medíocre - enquanto toda a matéria dela estava fadada ao abstrato.
Ela, agora, seria essência.
Lembrança.

29 de dezembro de 2015

Knocking, knocking.
Foi lido
e vai bater por um tempo.

9 de novembro de 2015

Líquido.
Fluido estado que se tem todas as formas de qualquer recipiente.
E que,
na temperatura certa,
evapora.

28 de setembro de 2015

De um dia até o mesmo, um ano depois, as mudanças correram. Incrível como mudanças sempre acontecem, como estar em movimento é natural mesmo quando tudo parece ser tão apático. E o movimento, e não outra coisa, outro estado, leva a fluir pelos dias até chegar aqui: 365 dias depois.
Pasmem. Fiz 25 anos. Pasmem. Não sou mais criança, adolescente... passiva. Devo ser agito, fazer muitas oportunidades aparecerem e crescerem, fazer uma rota-ativa de sortes conquistadas para então estar aonde devo estar.
A verdade que cheguei sobre mim é que as coisas acontece em delay, comigo. Descobrir o que se quer, o que fazer, mudar e repensar é sempre em delay. Fazer o quê? O que não dá mesmo é ficar estagnado. Então as rodas vão rolar e girar; sempre no mesmo eixo, mas em outro lugar.
Ser 25 anos e girar.

5 de agosto de 2015

7 a 1

Que coisa, querido!
Que coisa hoje fechar os olhos e ter a plena sensação de que foi assim que estivesse por todos aqueles meses. Queria poder te mostrar essa sensação de escuridão que me abateu, te mostrar como foi ficar perdida dentro de mim mesma sem entender muito bem nada do que eu sentia ou filtrava sentir.
Eu tinha fechado a porta, lembra? Tinha trancado todo mundo lá fora e acho que girei a chave na fechadura, joguei-a fora e depois sodei a fechadura, joguei cimento no batente e assisti secar. Também apaguei a luz. Apaguei a luz para me camuflar dentro desse recinto. Apaguei a luz para não ver nada - assim como eu já não via há muito. Tranquei a mim dentro de mim, com medo de que me tocassem tão no âmago como você fazia... eu era tão sem camadas, tão sem ser cebola, tão Ser com você.
Achei que jamais poderia ser tão franca, verdadeira e carne viva com alguém de novo.
Percebe por que tão cega?
Você tava lá fora, analisou a situação, atirou a pedra, quebrou a vidraria e surgiu pela janela. Caiu no escuro e sabe Deus como me encontrou no meio dali.
Ou fui eu que te enxerguei em toda aquela escuridão, me guiou até a janela e me fez me jogar contra o vidro e cai no seus braços, ali do outro lado, meio que no acaso, então, me carregou no colo? Assim mesmo, como eu escrevi ali atrás, no acaso. Você mesmo me disse que não tava tentando nada - só para se entender como fluí para você, não precisando de nada de muito especial. Foi aos poucos, com uma mão dada no meio da multidão, um corpo em febre querendo meia atenção, uma calça nova a ser experimentada, um beijo recusado no meio da madrugada, aquela rápida mão que no show tocou a cintura, cada olhar aberto em insônia achando que era raiva. Cada olhar no celular para ver seu nome, cada pontinha de ciúme encobertada por uma raiva (ou será que eu chamei de raiva para não me explicar o que tava acontecendo?). Cada dia pensando em um presente, cada dia pensando no seu aniversário e o que essa data um dia significou. E hoje significa algo novo, algo ainda maior.
Você arremessou pedregulhos na minha janela na total aleatoriedade. Fechava os olhos, girava o corpo e jogava na direção em que sua mão parava. Quis o Acaso que fosse sempre na minha janela. Quis o Acaso que primeiro eu ficasse enfurecida com o barulhinho. Quis o Destino que eu pensasse que fosse o Acaso e fui lá ver. E vi você.
Na naturalidade do Destino eu me senti em você.
Sim, me atirei contra o vidro.
Sim, torci para que caísse no seu colo.
Sim, torci para que você não se assustasse muito.
Sim, torci para que me abraçasse forte.
(Num íntimo medo de que você me abraçasse uma última vez).
Nem sei como agradecer, para ser bem sincera, por não ter me expulsado. Mas agradeço na mais pura Gratidão por ter-me deixado segurar sua mão com tanta frequência, e por ter-me feito enxergar que ainda restava coberturas em mim diante de você. Grata por fazer fluir essa Confiança em você, não apenas como namorado, mas como eterno guardador dos meus segredos tão frios e nus. Dessa vez, meu querido, garanto que não tenho medo de despir minha alma diante dos seus olhos, que sei que você vai fazer bom uso de cada coisa que te digo e que o ciúme bobo logo logo evaporará.
Afinal, querido, é olhando nos seus olhos que posso sentir tudo fluir livremente; é procurando sua mão para caminhar que sei que estamos bem e vamos nos fazer ser bem porque o certo é eu estar com você, e a recíproca é tão verdadeira que faz da mutualidade de ambos algo totalmente desnecessário de se escrever aqui. Agimos e sentimos juntos.
Somos juntos, e dessa vez, querido, seremos ainda mais. A fragilidade que sinto em seu abraço é o suficiente para que eu queira ganhar força igual para te abraçar de volta. E tudo nessa última sentença é um elogio a você.

Entende o que eu tô tentando te dizer?!
Vamos mirar nossa felicidade crescente, e o nosso Amor transcendente.
Vamos mirar em nós de mãos dadas.

1 de julho de 2015

Se fôsse para não-ser/ser?

Ela me contou que eu preciso me decidir logo, que você não vai ficar à mercê da minha indecisão esperando que um dia ela se desfaça. Ela me pediu para escolher logo de uma vez o que eu vou fazer, se entrego essa carta do jeito que escrevi da primeira vez ou mudo o final. Você precisa concluir, ela me disse e ninguém imagine o quanto. E me pesa essa indecisão por não conseguir entender nada e saber que algumas coisas simplesmente não mudam e outras eu não consigo entender por que mudaram tanto, e só agora. Que coisa!, eu vou gritar, numa mistura não fundamentada de raiva, rancor e nostalgia. Podia ter sido tanta coisa diferente, poderia ter sido tanta coisa que não a mesma. Mas, aí sou eu pensando livremente e sem linearidade nenhuma, jamais teria sido diferente porque já aconteceu - e se não tivesse fim, talvez nada do que hoje anda e acontece seria. Nada do que hoje somos estaria. Seria. Vai permanecer? Uma promessa calada feita algumas vezes que não se cumpria. Um pedido feito numa noite na frente do portão. Queria a mudança completa, e não só a transição. De transição já basta eu, que quando chega o ponto de ser irredutível, me jogo para trás e mudo de direção. Acho que a minha indecisão circunda a transição - e uma calada dúvida de não compreender o que é esse momento repleto de sentimentos confusos e contraditórios, que por muitas vezes batem de frente um com o outro numa força tão absurda que essa energia liberada e propagada chamei, carinhosamente, de dor-de-cabeça. Eles estão disputando espaço com espadas de ferro e estão sem escudos, aptos a ferir e se machucarem. E aí dói. Aí eu não durmo. Aí eu já não sei de mais nada.

Ela me disse que eu também mudei, e concordo. Mudei-me para o meio do olho do meu próprio furacão.

28 de junho de 2015

Zoombies

Ela tava ali dirigindo até você imaginando um punhado de coisas, sem tirar os olhos da estrada, fazendo as contas de quando fora a última vez que percorrera aquele trajeto e quando fora a última vez que as borboletas se debateram no estômago.
O que seria que teria acontecido com elas? Se debateram tanto antes que agora estavam todas mortas devido ao espaço limitado do estômago? Foram todas corroídas pela acidez interna do órgão? Ou foram esmagadas pelo consumo diário de comida? Quem sabe até mesmo afogadas...
Ela parou na frente da sua casa, quase que silenciosamente, segurou firme o volante entre os dedos e respirou fundo três vezes sem saber. Quis sair correndo e largar o veículo ali mesmo, mas optou por ficar. Ela precisava te encarar. E quando ergueu a cabeça e te viu sair do portão, caminhando em meio às sombra e luzes da noite, talvez alguma borboleta tenha sobrevivido a todas essas catástrofes naturais e físicas. Você entrou pela porta do co-piloto e não percebeu quando ela não te sorriu. Estava atenta às possíveis mudanças internas para não perder o ressucitar das asas das borboletas. E quando você a beijou tão na saudade da última vez em que se viram, nada no estômago mudara.
Elas estavam, de fato, mortas.

42

E se fechasse, por um segundo, os olhos e pudesse redimensionar toda a sua linha tempo, ainda assim você escolheria tudo isso que lhe aconteceu? Seria cada passo do seu passado a predição do seu futuro? E se a partir de agora você só tivesse a ilusão da capacidade da escolha quando, na verdade, aqui, nesse agora, já se foi então sua última chance de ter um bom futuro?

Você correria o risco de mudar o passado que já conhece para tentar um outro novo sem a certeza de futuro nenhum?

7 de junho de 2015

A little patience.
"all we need is a little patience".

Hey,

queria poder agora correr até você só para me aninhar debaixo do seu braço, deixar toda a minha raiva ser expurgada pelos olhos, levantar a cabeça e ir embora. Estou nessa inércia desse sentimento tão perigoso, que ora se acalma e coisas bobas se tornam irrelevantes ora volta a toda me querendo fazer atirar facas em todos os peitos.
Desculpa, mas o seu é um deles.
Nessa mira à laser tá quase todo mundo e isso, às vezes, me deixa com medo.
Outras, me deixa poderosa - com o sangue a ferver e o campo de visão diminuído. Focado.
Quero machucar vocês - e então, não quero mais.


31 de maio de 2015

(4) E eu que não vi você mudar

Eu falei que seria assim, mas confesso que eu mesmo não acreditei. Disse tudo tão alto e tantas vezes que acho que era para me forçar a acreditar nessa lógica simples - e, burrice a minha, cantei essa jogada há tanto tempo e demorou para chegar. Na verdade, não pus fé de que chegaria. E eis você aí, parada diante de mim, braços cruzados e tão irredutível nos seus dizeres. Justo você que me apaziguou tantas vezes, que pegou na minha mão, me sorriu e me olhou e disse que iríamos fazer dar certo. Dava certo, você fala, antes de você parar de confiar em mim, ou, melhor, antes de me subestimar. Te subestimar, querida? Como posso subestimar alguém que sabe até a diferença na maneira como eu pisco? Você pisca errado agora, tá nervoso porque sabe que não vou acreditar nesse seu discurso. Sabe que nunca acreditei. Sei. Mas você ficava... por que ficava se sabia que eu não prestava? Empilhar pedra sobre pedra para construir um lindo castelo. Sou pedras e você quis que eu fosse mármore. Não. Sempre soube quem você era, mas eu fiquei porque eu fui a única que você aceitou por perto. Ou é mentira que você me quis aqui também? Mentira que você não queria que eu estivesse fora?!

A mentira é que eu quero que você se afaste.
E você já foi embora.
E dessa vez acho que não volta.

O que eu vou fazer com esse  monte de pedra, querida?
Como fazer um castelo para você sem a mão-de-obra?


Querida?

25 de maio de 2015

3

Preciso te dizer, e dessa vez será a última: para mim, não dá mais. Ou a gente fica junto e eu finjo que ignoro todos os os seus erros e defeitos, ou a gente briga feio, vira a cara e viramos mera lembrança de um passado. Nem bom e nem ruim. Mas já te imploro, antes que você comece a de fato considerar as minhas opções, que não quero nenhuma delas, querida. Quero aquela em que você segura minha mão e me olha no fundo dos olhos e diz que vamos encontrar uma saída juntos. Que o jeito como você vê o mundo é muito mais amplo do que a minha visão e, então, por isso, vamos sentar e pensar numa solução juntos. E, de verdade, eu não quero mais brigar. Estou cansado desse ciúme que me invade e estou cansado de esquecer as suas palavras. Atitudes, você me diz, e me sorri, e fala que faz de tudo para eu ficar calmo mesmo longe. Carrego você comigo, você me conta, e jamais te deixo para trás quando me afasto. É que, veja, linda, te vejo caminhar embora toda semana. Te vejo entrar no carro e ir embora para uma vida que eu não participo, uma rotina que eu não conheço de cor e salteado. Quando você vai embora, quem fica sou eu, mesmo com você me dizendo que me leva... me leva de verdade! Me deixe ficar lá com você, conhecer cada passo seu por aquela cidade imensa, beber de cada cerveja que você compra. Vamos compartilhar mais que esse sentimento, quero compartilhar a sua vida que não conheço. E eu sei que você vai sorrir e dizer que preciso ter paciência, que já já você volta e que você sempre vai voltar. Eu sempre caminho em direção a você, querido. Não quero mais isso... não quero caminhar com direção, quero caminhar com você, seja por onde for. A gente vai brigar toda semana e eu sei que isso vai te cansar e, quando eu nem mais perceber, seu pensamento vai voar para tão longe de mim que voltar será apenas parte da rotina, até que esta também mude e eu seja, pois, sua lembrança de um passado. Nem ruim. Nem bom. Já te aconteceu uma vez, lembra? E você me diz que o nosso futuro depende de muitas variáveis, e que algumas é você quem controla e outras sou eu. Engraçado como tudo parece sereno com a sua voz e como eu entendo o que você quer de fato de me dizer. Chega de ciúme sem motivo. Chega de discussões nos nossos encontros. Vamos trabalhar na felicidade que é te receber em meus braços em todas as suas voltas, porque, veja, você sempre volta e eu sempre te recebo.

18 de maio de 2015

(-1) Beira de piscina

E quando eu percebo tô com a minha mão na sua e quando eu percebo tô ausente desse dia inteiro e quando eu percebo você não fala mais nada e quando eu percebo seu rosto está entre os meus dedos e quando eu percebo sua pele é tão quente para mim e quando eu percebo tô ali. Parado. Olhando. Te partindo. Te apreciando em pedaços. E quando eu percebo tem um coração acelerado que parece pertencer ao meu peito e quer ir de encontro ao seu e quando eu percebo acho que esqueço de respirar e notar se ainda estou acordado, vivo, dormindo. E quando eu percebo a sua boca já está na minha (e a minha já estava na sua há muito antes) e quando eu percebo de fato o que está acontecendo entre a gente... é familiar. Familiar estar tão afoito ao seu lado e familiar é te beijar. Familiar fazer meu corpo e mente relembrarem de como eles reagiam diante de você. E quando percebo você se afasta, olha para abaixo, morde o lábio e meu coração acho que para de vez. Por favor, menina, sorria para mim nesse instante para eu saber que está tudo bem! Pisque duas vezes se gostou, três se foi ousado demais, uma se quiser me esquecer.
Mas você não faz nada.
Me dá um beijo no rosto, levanta com cuidado, arruma a saia do vestido e


me estende a mão.
Qual seu celular?
Onde você mora?
Casa comigo?

16 de maio de 2015

Você.

Denomino assim um outro sujeito próximo a mim, assumindo certas condições implícitas neste ato tão humano de verbalizar um som para uma pessoa. Você. Assumo que seja um ser; assumo que seja passível de compreensão de que é com você com quem converso. Assumo que você sabe de quem estou falando. E estou falando de você.

Sempre estou falando de você.

E por "sempre" quero sim me referir a todos os espaços de tempos contínuos e, sim, eles são sempre seus. Falo de você o tempo todo dentro da minha cabeça, imaginando minhas inseguranças e as suas e tentando não imaginar quando você vai pular fora deste barco. Navio. Sim, sou um transatlântico. Se eu pudesse, também cairia fora.

Vá, pule, e nade nesse oceano... que também é a mim.

(2) Vamos ficar aqui?

Garota,
vou te dizer uma coisa vez por todas: não quero. Está me escutando? Não quero!!! E você só me olha, de braços cruzados e diz que não vai discutir comigo aqui. Que droga! Odeio como você pondera as palavras para cima de mim e ainda controla os humores. Você fala com a voz baixa e me olha estática, e o que eu mais quero agora é gritar com você. Apontar o dedo no meio da sua cara e dizer tudo o que você faz que alimenta a minha raiva.
Tô sim com raiva de você.
Te vejo virar e direcionar seus passos para a saída e eu a sigo. Faço isso porque quero sim bravejar na sua cara e te ouvir que eu tenho a razão e vamos fazer, a partir de agora, como eu decidir. O vento frio da noite me flagela no pescoço e eu encolho, mas você segue à frente fincando seus saltos na calçada com tanta força e elegância como se esse frio não a atingisse. Olha aqui, esse cara ficou em cima a noite toda e você deixou! E você só me olha, cruza os braços e me pergunta o que mais. O que mais? Ele não é sujeito para você ficar se vulgarizando... Não, linda, não foi isso o que eu quis dizer. Você só respira fundo e me pede para contar, uma vez por todas, o que está acontecendo e me pede para que seja extremamente sincero. Nada de encontrar desculpas no que você faz ou deixa de fazer.
A verdade? Eu quero te falar a verdade, mas dizê-la é assumir para você - e, antes de todo mundo, para mim - uma coisa que eu não sei ao certo o que é. Sinto raiva, respondo. Sinto raiva quando vejo que tem mais gente que se interessa por você. Não entendo o por quê de você rir; que coisa, menina! Tô aqui abrindo meu coração e você está rindo de mim?! E para a minha surpresa você abaixa os braços e relaxa os ombros e me sorri, dizendo que isso não é raiva, querido, é ciúme. Fico inquieto por uns instantes. Ciúme de você? Por que eu teria ciúme de você?! Por que eu sentiria algo assim em relação à você? Por que que eu...

 eu a beijo.
Instintivamente.

Sim, linda, é ciúmes.
Vamos ficar aqui?
Não quero mais voltar para lá.
Não quero voltar onde todos podem te ver.

15 de maio de 2015

(1) Diga-se, de passagem, a respeito

Eu tô meio bêbado sim, e devo dizer que nunca te vi mais linda. Essa mistura dos pontinhos reluzentes das luzes dos postes com o contorno do seu rosto, e eu sei que você sorri agora ou está rindo de mim e, na verdade, tanto faz. Que seja para ou de, não me importa, desde que seja eu o foco.
Por mim, sentava aqui mesmo no meio fio, tirava meu casaco, estendia na calçada para que então você se sentasse. Ficava aqui, percebendo o chão se inverter e a cabeça doer, com você sentada ao meu lado dizendo que me leva embora. Sim, linda, eu quero ir embora. Vamos então? Mas, toma! Aqui tá a chave do meu carro. Não me importo que você o dirija, você faz isso com tanta delicadeza que prefiro só te olhar, mesmo que jogado no outro banco. Estou apenas meio bêbado, querida. Ainda posso andar sozinho, pensar sozinho e conversar com você - só que eu quero apenas te olhar por esse resto de noite. Você abaixo o som da música, deixa quase ambiente, e ainda cantarola baixinho e eu finjo que é para mim. Te pergunto aonde você está me levando, se vai me sequestrar e você ri, diz que está indo para minha casa e que jamais me sequestraria. Que coisa, adoraria sumir por esse mundo com você. Me leva, linda? E eu tenho o dom de te fazer rir de madrugada. Que dom mais único, porque seu senso de humor é muito diferente do meu. Tão alto, tão elevado. Você ri de coisas trágicas, de sarcasmos, de entonações diferentes, mas não ri do que eu falo quando sóbrio. Seria esse o motivo de eu beber? E você diz que eu bebo por convenção, não porque eu gosto de vê-la assim, tão relaxada ao meu lado. Seus dedos longos me chamam atenção, sua unha esmaltada em preto brilha em cima do volante. Pára, eu te peço. Pára, vamos parar aqui, vamos andar na rua, vamos sentir o frio da noite, vamos? E, para a minha surpresa, você estaciona o carro e diz que sim. Eu abro a porta e me ponho de pé, praticamente são, porque esse momento, minha linda, eu quero sentir e guardar. Você vem até mim e eu estico a mão. Quero andar de mãos dadas contigo - coisa que a gente não faz em público. A gente não dança, a gente não se olha, não se beija, não se toca. Eu só queria poder andar de mãos dadas às suas quando bem quisesse, e - dita essa verdade bem alta - eu quero a todo momento. Você aceita e a gente anda... Caramba, menina, você me faz feliz demais com tudo isso.

13 de maio de 2015

Tava tão frio que seu nariz já estava todo vermelho. Parada, estática, com as mãos cobertas pelas luvas enfiadas dentro dos bolsos. Você nem queria vir para começo de conversa, mas te convenci ao implantar a ideia de que perturbaria seu sono com ligações e mensagens até que eu fosse embora do show e passaria na frente da sua casa, subiria até a sua varanda e só sossegaria enquanto abrisse a janela e me desse um beijo.
Perturbar seu sono de várias formas até que ficasse enraizado na sua mente o quão mais simples seria aceitar meus convites.
- Tá gostando do show?!
Eu queria rir de você. Nada ali combinava muito com você, mas ali estava, agasalhada até a cabeça, com 3 meias grossas e bota, estática, me odiando um pouco, verdade.
- As duas músicas que eu conhecia já foram tocadas.
Você estava num péssimo humor.
- Quer ir embora?
Me aproximei de você e a envolvi com os meus braços, segurando seu corpo perto ao meu. Você levantou os olhos para mim e me encarou por alguns segundinhos.
- Não. Eu consigo esperar.
E então me sorriu.
E eu sorri, imaginando se você não via a hora daquilo tudo terminar, eu te deixar em casa, talvez ganhar um beijo e poder dormir sossegada, sem quaisquer tipos de interrupção da minha parte.
Te achei ainda mais linda.

4 de maio de 2015

Ironias à parte, que se parta o que partiu.

Agora é a minha vez de te contar como a nossa história teria sido.
Querida, você não foi meu "e se". Te descartei logo de imediato e nunca mais pensei em você. E eu nem sei ao certo o porquê. Acho que tudo passa mesmo, esquecemos das pessoas quando menos percebemos. Eu não percebi. Você simplesmente sumiu da minha cabeça e do meu coração. Disse que te amava, mas hoje sei que não. Nossa história terminou na catástrofe de como começou - e dissipou.
Se hoje a vejo tão perto de mim e absolutamente nada me faz querer dar esses 4 passos que nos separam, sei que acabou mesmo. Mas você vem até mim, meio tímida, e eu acho que você não me esqueceu. Meu ego se inflama e sei que você ainda pensa em mim. Que coisa! Que ironia, justo a mim que no começo tive de fazer de tudo para você me querer por perto e agora você não aguenta.
- Moço, roubaram sua carteira.
E isso eu também não percebi. Nem senti. O filhodaputa enfiou a mão no meu bolso e eu não percebi nada, mas você viu. Me deu a notícia e depois voltou para a companhia do seu namorado.
E eu não percebi mesmo.

29 de abril de 2015

Eu só perdi o jeito.
De dizer sim, de sorrir.
De me deixar permitir.
Perdi esse jeito de querer abraço
E doar sorrisos
Diante do medo não escasso
De não ter um paraíso.
Desculpe pela guilhotina.
Mas quando vi,
Sua cabeça já era parte da minha sina.